domingo, 2 de dezembro de 2007

UMA CERTA NOITE de Boris Barnet - 12.12.2007


Em cada enquadramento de Odnazdi Nociu há qualquer coisa que jorra: desde os tiros das metralhadoras na primeira imagem, existe um movimento diagonal ou lateral que o define, atravessando-o. A coreografia está no plano e não, como em Eisenstein, na relação entre planos estáticos (tese levada ao absurdo no esquema dinâmico de Alexandre Nevsky, que confunde o desenho dos enquadramentos, alinhados da esquerda para a direita, com uma curva gráfica.
Deste filme, que Boris Barnet realizou em 1944 nos estúdios de Erevan, na Arménia, longe da frente, o que acima de tudo se recorda é uma imagem ou um momento: uma rapariga, com um vestido esfarrapado, atravessa, apressada, um campo de escombros, com os pés descalços a pisar as pedras aguçadas, e sobe a escada de metal, ao ar livre, de um edifício meio destruído. Ela faz a ligação entre os dois locais deste filme de guerra insólito que conta a ocupação, o massacre e a libertação de uma cidadezinha russa. (...)
Não é excepcional que a resistência soviética à invasão nazi seja incarnada por uma jovem. Godard tinha razão quando lembrava os pés descalços sobre a neve de Zoia (lev Arnstam, 1944), Joana de Arc inspirada numa personagem real; e o Souyouzkinojournal de Vertov e seus colegas é por vezes comentado por vozes femininas suaves e pensativas, ao contrário do alemão estridente do Deutsche Wochenschau.
O que é excepcional é o olhar amoroso que o cineasta pousa sobre a jovem que a luta em nada masculiniza, demasiado frágil para ser tipicamente soviética,tropeçando sob os impropérios, esbofeteada, conspurcada, espancada. A câmara mantém-se sobre ela, sem contar nada, quer ela ria ou chore, quer lave o chão quase de rastos ou corra com passos de dança. Está sozinha perante o mundo, figura de inocência e de coragem, no meio dos velhos, dos bufos, de reféns e de feridos.(...) 
Bernard Eisenschitz
in catálogo "cinematografia – coreografia
Lisboa - Novembro de 2007