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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

DITES-MOI QUELQUE CHOSE de Philippe Lafosse - 08.11.2010 - 21h30


Dites-moi quelque chose é uma montagem de conversas entre Jean-Marie Straub e o público do Reflet Médicis, em Paris, gravadas por ocasião da retrospectiva integral organizada por Lafosse, a um ritmo de uma sessão todas as terças-feiras, durante quatro meses, de Novembro de 2007 a Março de 2008. O talento natural de Straub para a comédia está já patente em Où git votre sourire enfoui?, o filme de Pedro Costa sobre a montagem de Sicilia!. Dites-moi quelque chose confirma as disposições e o gosto de Jean-Marie Straub em relação ao teatro. Mas, entretanto, a comédia perdeu uma das suas principais personagens: Danièle Huillet morreu em Outubro de 2006. (...)
O que impressiona, todavia, [...] na visão do filme [...], é a seriedade com que Straub considera cada pergunta. Se por vezes se exalta, se a conversa se transforma em espectáculo, é, sobretudo porque ele não deixa passar nada, porque cada comentário, cada expressão do público são analisados e suscitam respostas à medida do seu conteúdo. Todas as perguntas são iguais em direito, diz constantemente Straub. Esta igualdade significa que o cineasta será implacável, que se aplicará tanto a dinamitar a estupidez quanto a prolongar a inteligência, que bastará uma palavra para o deixar furioso - “mainmise” (dominação), por exemplo. Assim Straub converte em teatro o habitual debate cinéfilo e a moleza aproximativa da animação cultural: um espaço de ressonância da palavra, o palco conflitual onde se constitui uma comunidade. (...)
Cyril Neyrat
in catálogo "cinematografia – teatralidade 2"
Lisboa, Outubro de 2010

CORNEILLE-BRECHT e O SOMMA LUCE de Jean-Marie Straub - 08.11.2010 - 19h00


(...) Ver, escutar os ruídos da cidade, vozes como um apoio, uma irrigação, um rumor, Cornelia Geiser de pé em Camila a Romana primeiro, a dizer em dezoito versos o ódio que sente pelo seu país depois de Curiacio, seu amante, pertencente ao campo inimigo, ter sido morto pelo próprio irmão; depois, quarenta anos exactamente após o magnífico Othon, dizendo como um dardo que pica, catorze versos dessa peça soberanamente novos. Que são como estalidos, como agulhas na lã.
Ver, ouvir Brecht orquestrado como uma audaciosa música contemporânea - interpretada por Cornelia, sentada agora e tocando todos os instrumentos de cordas - e arquitectado pelos seis planos de Jean-Marie Straub, seis toques de percussões. (...)
Ouvir Giorgio Passerone, impaciente e cuja respiração material se apodera de uma nova tradução de Dante para lançar flechas lentas em direcção a um alvo em movimento, deslumbrante de substância.(...)
Corneille/Brecht, O Somma Luce: dois filmes que, tornando alguns textos estrangeiros e estranhos, arrancando-os, através do trabalho dos recitantes e através da realização, ao próximo demasiado próximo, dão, pois, a ver e a ouvir como raramente se vê e se ouve no cinema. Objectos únicos. E interligados - entre si e com aqueles outros objectos únicos que são os filmes de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub desde 1962, por muito diferentes uns dos outros que sejam, tal como Othon (1969) é diferente de La Mort d'Empédocle (1986). (...)
Philippe Lafosse
in catálogo "cinematografia – teatralidade 2"
Lisboa, Outubro de 2010