Mostrar mensagens com a etiqueta Jean-Daniel Pollet. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jean-Daniel Pollet. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

MÉDITERRANÉE de Jean-Daniel Pollet - 08.11.2008


(...) Tento, então, que o que quero (sem saber se posso) dizer se não descole absolutamente da força que escapa, com um brilho enigmático, da montagem que faz emergir um secreto sentido (um secreto sorriso) da disposição que liga estes fragmentos de mundo. Porque esta montagem me aparece como o culminar de uma obstinação, uma espécie de cegueira. Como se o querer fazer, o ter-de-fazer (de que falava Ponge) pudesse não saber o que o obstina: e não sabe. Uma ignorância solar é a grande linha de sentido: a que se cola ao olhar cego das cabeças de estátua, aos grandes planos sobre o seu sorriso medusino, ao violento zumbido das abelhas; a que cola os fragmentos recolhidos: o esplendor carnal da festa, do canto masculino (de toada melancólica e insistente, feroz como um zumbido das abelhas), a rapariga de vermelho com seus dentes brancos, de loba; o estranho ter-de-morrer da “bela adormecida” no hospital, o ter-de-matar que incita os toureiros, a profusão de ruínas, a cidade à beira-mar, o silenciosos barqueiro. (...)
Maria Andresen
in catálogo "cinematografia – coreografia 2"
Lisboa, Outubro de 2008

sábado, 1 de novembro de 2008

LE HORLA de Jean-Daniel Pollet - 06.11.2008


Poucas obras cinematográficas se colocam, como a de Pollet, sob o signo da dança, seja ela aparente ou latente, aposta narrativa (o tango em L'Acrobate) ou princípio estético (a coreografia do mundo em Dieu sait quoi). Le Horla pertence à segunda categoria: não há dança em acto, mas uma força coreográfica que conduz soberanamente o discurso e a realização.
O cinema de Pollet é essencialmente coreográfico no facto de colocar a si mesmo como horizonte um pôr em ordem o mundo, a imposição de uma forma ao caos e à desordem primevos. Além disso, em cada um dos seus filmes, a dança é inseparável de dois outros motivos obsessivos: o círculo e a repetição. Motivos ambíguos: o círculo e a repetição são também os signos do encerramento e da libertação. Círculos do prisioneiro que anda às voltas entre as paredes da sua célula (L'Ordre), repetição divina de uma forma perfeita, movimento infinito da beleza, alegria celeste do moldar de uma obra à imagem da grande relojoaria do universo (Méditerranée, Dieu sait quoi). 
(...)
No horizonte da obra de Poullet, como da de Francis Ponge, desponta a utopia de um homem reinventado, regressado às fontes. Um homem que, como diz o poeta em Dieu sait quoi, terá reaprendido a dançar.
Cyril Neyrat
in catálogo "cinematografia – coreografia 2"
Lisboa, Outubro de 2008

sábado, 1 de dezembro de 2007

TROIS JOURS EN GRÈCE de Jean-Daniel Pollet - 11.12.2007

 
Pollet faz parte, com Resnais, dos raros cineastas de quem se pode dizer que inventaram uma qualidade de movimento. Tal como se fala com razão do “travelling à la Resnais”, existe igualmente um “travelling à la Pollet”, que permanecerá a sua herança mais evidente.
Em Trois jours en Grèce, Pollet utiliza várias vezes o travelling linear e regular. Mas o movimento próprio deste filme é de uma terceira espécie, tão longe do deslizamento à distância quanto da agitação do pânico. É um movimento muito mais livre, sinuoso, que serpenteia sem que qualquer obstáculo o detenha, o impeça de avançar. Uma travessia oscilante, uma flutuação ondulada,  que se insinua no mundo e nele desenha arabescos. (...) Um olhar dançado. (...)  Em Trois jours en Grèce, terra e mar parecem confundir-se para uma travessia sensual e suave de paisagens, rurais e urbanas, ao contacto das quais a câmara aprende a dançar.
Uma das sequencias com o steadicam distingue-se como uma das mais belas de toda a obra, uma das mais belas coreografias urbanas da história do cinema. Atenas, à noite, estação do metro Omonia. A câmara sobe as escadas, serpenteia pelos subterrâneos, ao longo dos carris, do metro no cais. Os viajantes entram e saem das carruagens, atravessam o campo, de frente, de costas, de perfil. Toda uma azáfama humana que nunca perturba a progressão da câmara. O movimento é contínuo, a velocidade igual, a ligeira oscilação parece nunca dever parar. A câmara parece embalada por ondas invisíveis, embarcada como o gravador que não funciona para ninguém no bote amarelo do Horla. Os planos encadeiam-se, naquela flutuação, deslizam uns para dentro dos outros. Por duas vezes a câmara segue pelas escadas rolantes atrás dos viajantes, para subir para a cidade. Ao longo das mesas do restaurante, em volta do quiosque de um vendedor de salsichas, a flutuação continua, liga o subsolo e a superfície como dois aspectos do mesmo espaço infernal. (...) Pollet dá a ver o invisível, torna sensível a forma de uma cidade, o génio de um lugar, o seu espírito, a sua pulsação. (...)
O poder coreográfico liberta um movimento perpétuo, circular, a vasta “relojoaria do mundo” cantada por Francis Ponge. O cinema de Pollet, transportado pelo espírito da dança, atinge em Trois jours en Grèce, a amplitude de uma cosmogonia.
            Cyril Neyrat
            in catálogo "cinematografia – coreografia"  
Lisboa - Novembro de 2007

sexta-feira, 26 de setembro de 2003

DIEU SAIT QUOI de Jean-Daniel Pollet - 05.10.2003


(...) Não basta olhar de caras – “objectivamente” – uma coisa para apreender a sua verdade: ilusão da ciência que, pelo contrário, há que combater. É preciso fazer obra de arte, ou seja, em cinema, encontrar a imagem (visual ou sonora) que, sem perturbar a coisa, permita que a sua presença se manifeste. Encontrar a boa distância, o movimento correcto, a duração adequada: restituir na imagem a beleza da coisa. Fazer com que a imagem retorne, insistir. Levar a imagem e a coisa à maior intimidade para que a imagem não tenha outra beleza que não seja a que emana da coisa.
Ponge chamava a arte literária “em socorro do homem que já não sabe dançar, que já não conhece o segredo dos gestos e que já não tem a coragem nem a ciência da expressão directa pelos movimentos”. Pollet ensina de novo cada um de nós, espectadores de Dieu sait quoi e da sua coreografia recolhida e sensual, a dançar.(...)
Cyril Neyrat
O Olhar de Ulisses IV - Porto 2001
Resistência
in catálogo Temps d'Images 2003