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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

ONCLE VANIA de Pierre Léon - 04.11.2010 - 19h30 - Ante-estreia

(...) A melancolia [...] é difusa, é daquelas que nos assalta depois de um almoço de Verão, quando se resiste à sesta para conversar devagarinho com os familiares ou sentar-se preguiçosamente debaixo de uma árvore, porque o álcool e o cansaço da digestão deixaram os olhos demasiado sensíveis. Então, a preguiça de um instante deixa-se atravessar pela nostalgia de aventuras mortas, enquanto um vago tédio torna o futuro insuperável - uma suave indolência sugere-nos que tudo acabou. O Tio Vânia é aquele que não quer deixar-se levar por este estado que, lucidamente, constata para o rejeitar: recusa a beatitude de Gaufrette (Vladimir Léon) e, quando Elena Andreïevna (Bénédicte Dussère) declara que está um tempo maravilhoso, ele responde alegremente que “está um tempo para a gente se enforcar”. Ora, talvez seja precisamente por estar maravilhoso que é de “se enforcar”: tal como, por vezes, um bem-estar passageiro nos lembra que a felicidade é impossível, aquilo que surge como maravilhoso pode levar-nos a pensar naquilo que já não o é. Pierre Léon torna estes sentimentos palpáveis através da luz, mas, também, através da presença dos actores que parecem ter sido enredados no estado das suas personagens, como que envolvidos num doce cansaço.(...)
Marcos Uzal
in catálogo "cinematografia – teatralidade 2"
Lisboa, Outubro de 2010

sessão com a presença de Pierre Léon, Diogo Dória, Marcos Uzal

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

2 e 3 de Novembro

LES INTRIGUES DE SYLVIA COUSKI de Adolfo Arrieta - 03.11.2010 - 22h00


(...) Estávamos em 1974, o mesmo ano de La Maman et la Putain, mais um filme-testemunho da época. Mas, enquanto Jean Eustache “reconstitui” implacavelmente a atmosfera do tempo - as relações amorosas, a ressaca do pós 68, o quartier latin, a moda, as palavras, os factos e os gestos - realizando, por certo involuntariamente, por intermédio da ficção aquilo que para nós se tornou também um documentário, Adolfo Arrieta deixa a ficção avançar nas entrelinhas, ao ponto de parecer que esta existe antes da chegada e da concretização cinematográfica, para além do que é filmado. Como um fotógrafo que no escuro do seu laboratório via aparecer algo nos negativos, uma figura, uma situação que não tinha visto no momento em que tirou a fotografia. Igualmente, enquanto Jean Eustache radiografa e disseca transformando os seus escalpelados em heróis universais, em Adolfo Arrieta não há a mínima cirurgia, a mínima identificação: clara manifestação de uma época, as suas criaturas são, mais do que universais, fundamentalmente intemporais, fora do tempo e fora da sociedade. Para além da ficção e para além do documentário.(...)
E há Marie France. Meio fada, meio duende, a cantora que preenchia então as belas noites do Paradis Latin é Cármen, a escultura viva. Uma libélula espetada por um naturalista, exposta a todos os olhares, tanto por Arrietta como pelo artista Vernon. E embora nem um nem outro tenham a crueldade de Peter Ustinov, ela é uma irmãzinha de Lola Montes, trágica e comovente.(...)
Renaud Legrand
in catálogo "cinematografia – teatralidade 2"
Lisboa, Outubro de 2010
sessão com a presença de Renaud Legrand e Marcos Uzal

THE BLACKBIRD de Tod Browning - 03.11.2010 - 19h30


(...) Estamos aparentemente - mas apenas aparentemente - num mundo organizado sob o signo de uma visão maniqueísta. Uma visão que, de certo modo, ilustra a divisão perfeita entre Jeckyll e Hyde, dicotomia exemplar que serve sistematicamente de modelo à estruturação das ficções de Browning. Por outro lado, o cineasta utiliza o seu actor favorito, Lon Chaney (curiosamente filho de pais surdos-mudos), para encarnar um papel marcado não só pela duplicidade como pela duplicação. (...) Na verdade, em The Blackbird, ninguém é o que aparenta. 
Saguenail
in catálogo "cinematografia – teatralidade 2"
Lisboa, Outubro de 2010
sessão com a presença de Regina Guimarães e Saguenail

FREGOLI TRANSFORMISTA de Leopoldo Fregoli - 03.11.2010 - 19h30

Leopoldo Fregoli, ventríloquo e músico, conquistou uma reputação mundial como transformista, podendo interpretar em cena uma centena de diferentes papéis no mesmo espectáculo, mudando de personagem e de fato a uma velocidade alucinante.
Em 1897, em Lyon, durante um espectáculo no Théatre des Célestins, encontrou os irmãos Lumière que vieram assistir à representação. Louis Lumière convidou-o a visitar o seu laboratório. Fregoli, muito interessado por esta descoberta, procurou desde cedo integrar o cinema no seu espectáculo, convencendo os irmãos Lumière a vender-lhe um aparelho.
Fregoli modificará ligeiramente o aparelho que chamará de Frégoligraph e com o qual filmará em Itália numerosas curtas-metragens, de 1897 a 1903.
Alguns destes filmes mostram o seu espantoso processo de transformação, em plano único, como se assistíssemos ao seu espectáculo no palco.

GREZY (SONHO) de Yevgueni Bauer - 02.11.2010 - 21h30 - sessão de abertura


(...) Será pouco dizer que a história de Grezy (Sonho) suscita uma certa estranheza inquietante quando hoje em dia o vemos. Sergei Nikolaevich, viúvo inconsolável, pensa ter visto a mulher tão amada, viva, ao virar de uma esquina. “Elena!” Sim, é mesmo ela, ou melhor, a sua reencarnação, uma outra que se parece muito com ela, uma outra um tudo ou nada vulgar - mais tarde percebemos que é uma actriz - mas quem sabe se, uma vez com as vestes da defunta, essa semelhança não seria perfeita? Deixamo-nos facilmente levar pelas recordações que nos assolam durante estes planos, um corpo resgatado na Baía de San Francisco, um velho cemitério, uma ruiva um pouco ordinária, um vestido verde, cabelos soltos... Como se Grezy, contrariando o tempo, reencenasse o guião de Vertigo (A Mulher que Viveu Duas Vezes). Tal não é possível no nosso pequeno mundo racional (como também não é possível essa morta voltar à vida), mas a vertigem que se sente nessas imagens fez o seu caminho, obcecando-nos para sempre. (...)

Stéfani de Loppinot
in catálogo "cinematografia – teatralidade 2"
Lisboa, Outubro de 2010 

(...) Que coisa transforma um romancezito (...) (Bruges-la-morte, de Georges Rodenbach) numa obra-prima do cinema? Yevgeni Bauer, o maior realizador de cinema da era czarista e um dos maiores cineastas de sempre soube-o antes de muitos outros e com uma consciência lucidíssima: a encenação. Em Grezy, Bauer conta a sinistra história de um viúvo que julga reconhecer numa actriz a cópia exacta da sua mulher, acabando por assassiná-la num delírio fetichista: a encenação é toda ela um jogo entre diversos níveis de realidade misturados entre si - a visão, o pesadelo, o real - que dão vida a uma obra moderna e complexa (e estamos apenas em 1915!). Todo o filme poderia ser lido como uma visão onírica obsessiva: a estrutura é quase circular - abre e fecha com a morte daquela que parece ser a mesma mulher - e todo o filme se assemelha a um registo minucioso das alterações de uma mente cada vez mais ensombrada pela dor e pelo luto. Bauer mantém a câmara afastada das personagens - aqui não existem os seus extraordinários e inovadores primeiros planos - e cria uma série de tableaux vivants, que sublinhando mais ainda uma recitação dos actores já de si pesada e teatral, parecem tornar visível o estado de espírito cada vez mais angustiado do protagonista.(...)
Federico Rossin
in catálogo "cinematografia – teatralidade 2"
Lisboa, Outubro de 2010 


UMA HISTÓRIA IMORTAL de Orson Welles - 02.11.2010 - 21h30 - sessão de abertura


(...) Era uma vez, em Macau, um rico comerciante, o Sr. Clay... um dia lembra-se da história de um marinheiro ... a de um velho negociante, sem herdeiros, que pede a um marinheiro que passe a noite com a mulher dele ... e Clay manda o seu guarda-livros encontrar duas pessoas que representem esta história... (...) A encenação pode começar. Todos sabem os seus papéis. Melhor até do que aquilo que Clay consegue imaginar. Pode mesmo dizer-se que, nesta matéria, até sabem mais do que ele. E é realmente um pequeno teatro que Welles dirige na pele de Clay. O marinheiro é recebido diante de uma bandeira vermelha. Nada a censurar. Estamos em terreno conhecido. A única coisa é que nenhum realismo preside à sequência. A cortina pode abrir-se sobre o drama. (...)
Jean Breschand
in catálogo "cinematografia – teatralidade 2"
Lisboa, Outubro de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

CINEMATOGRAFIA - TEATRALIDADE 2


Em 2009 demos início a uma nova etapa deste ciclo, que prossegue em 2010, com uma nova porta de entrada - questionar as relações entre o cinema e o teatro. Esta programação procura, desde a sua primeira edição, levar o espectador a abordar os filmes - mesmo aqueles que já conhece - com um novo olhar e a redescobri-los graças à simples alteração do ponto de vista, desta vez através da teatralidade.
Alguns fios condutores guiaram a escolha dos filmes. Um deles é o tema da representação (a passagem do real ao imaginário ou, melhor dito, da mise en scène do real, a sua teatralização), como é o caso de Uma História Imortal de Orson Welles, ou Sonho (Grezy) de Yevgueni Bauer ou ainda Céline et Julie vont en bateau de Jacques Rivette. Um segundo fio condutor aborda aqui um conjunto de quatro filmes, filmes sobre o processo no cinema americano onde a sala do tribunal é encarada como uma verdadeira cena de teatro (The Return of Frank James, de Fritz Lang, Sergeant Rutledge, de John Ford, Anatomy of a Murder, de Otto Preminger e Point of Order, de Emile De Antonio). Outros ainda abordam o tema da metamorfose, o espaço enquanto cena, a frontalidade, as relações entre espaços fechados-espaços abertos, etc.
A separação entre os diferentes temas está longe de ser estanque e cada um dos temas evocados encontra ressonâncias em todos os outros.
Teremos a presença de Acácio de Almeida, Bernard Eisenschitz, Christine Laurent, Luís Miguel Cintra, Cyril Neyrat, Diogo Doria, José Manuel Costa, Luís Miguel Oliveira, Margarida Gil, Maria João Madeira, Marcos Uzal, Pierre Léon, Regina Guimarães, Renaud Legrand, Antonio Rodrigues, Saguenail, Alberto Seixas Santos, Augusto M.Seabra para participar nas conversas (informais) sobre estes filmes.
Esta programação foi concebida e coordenada por Pierre-Marie Goulet, Teresa Garcia e Ricardo Matos Cabo em conjunto com a Cinemateca Portuguesa e com a colaboração de Bernard Eisenschitz, Cyril Neyrat e Stéfani de Loppinot.
Um catálogo que inclui textos inéditos dos participantes considerando esta perspectiva da teatralidade acompanha (e prolonga) este ciclo.

Edição 2010: cinematografia - teatralidade 2

terça-feira, 26 de outubro de 2010

CINEMATOGRAFIA - TEATRALIDADE 2: CATÁLOGO


O catálogo "cinematografia-teatralidade 2",  edição 2010 de "o cinema à volta de cinco artes - cinco artes à volta do cinema" estará disponível a partir do dia 2 de Novembro,  dia da abertura deste ciclo, na Cinemateca Portuguesa. Este livro de 156 paginas contém textos originais de Jean Breschand, Stéfani de Loppinot, Federico Rossin, Emmanuel Siety, Saguenail, Renaud Legrand, Pierre Léon, Cyril Neyrat, Antonio Rodrigues, Bernard Eisenschitz, Philippe Lafosse, Maria João Madeira, Marcos Uzal, Diogo Dória, Luís Miguel Cintra, Philippe Fauvel, Ricardo Matos Cabo, Alok B. Nandi e ainda textos de Jean-André Fieschi, Manuel Cintra Ferreira, João Bénard da Costa, Giorgio Passerone, Jean-Claude Biette e Christine Laurent.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

EDIÇÃO 2010: CINEMATOGRAFIA - TEATRALIDADE 2

cinematografia-teatralidade 2
edição 2010 de 
o cinema à volta de cinco artes
cinco artes à volta do cinema 
terá lugar de 
2 a 11 de Novembro de 2010 
 na Cinemateca Portuguesa