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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O ÚLTIMO MERGULHO de João César Monteiro - 10.12.2007


(...) Como se recorda no filme, antes das Salomés despirem os sete véus, já dizia o velho Herodes que ou te ca las ou te fodes. César Monteiro mediu as distâncias e decidiu não se calar. Até porque este filme é também – eu diria sobretudo – um filme sobre o silêncio: uma protagonista muda, cinema mudo. Abre-se e fecha-se o som. Fez-me lembrar um texto muito antigo do Langlois, a propósito do L’Atalante de Vigo em que ele dizia que há filmes em que fechado o som, a imagem se achata, e outros em que, aberto este, a imagem adquire volume. Os dois planos-sequência das duas danças de Salomé (um, com Strauss, outro sem ele) parecem estar no filme para demonstrar que há um terceiro caminho. Se a imagem não se achata na dança muda (ou na dança da muda), é porque na retina e na memória persiste a dança musical. O que prova que o cinema é questão de tempo: sobretudo questão de tempo. E é esse tempo que vai deixando que a raiva pouse e que a ternura comece a vir à tona de água. A primeira dança vê-se com admi ração cúmplice, saboreando as transgressões, sucessivas e compulsivas. É uma sequência de antologia. Mas é de ontologia que se trata. E, por isso, é quase impossível ver a segunda dança sem os olhos rasos de água. É já da ordem do mistério, do mistério do cinema, A grande pureza só possível no grande vazio e no grande silêncio. (...)
 João Bénard da Costa 
in Folhas da Cinemateca

THE COOK de Roscoe "Fatty" Arbuckle - 10.12.2007


The Cook foi considerado, até 1996, um filme perdido. A película em nitrato foi encontrada nos cofres de Norwegian Film Institut . Isso permitiu-nos descobrir Fatty, na cozinha de um restaurante, lançando-se na dança de Salomé transformando uma couve na cabeça de São João Baptista e os utensílios de cozinha em cabeleira oriental enquanto Keaton se inicia na dança oriental na sala no meio dos clientes.

SLON TANGO de Chris Marker - 10.12.2007


(...) Mas que está este elefante a fazer, esse espantoso animal, que aspira e sopra o pó na sua coreografia dissonante de tudo excepto da música que estamos a ouvir? Como em Lumière, é um filme de um só plano, um plano-filme mais do que um plano-sequência. (...) O plano, esse bloco inextricável de espaço tempo dura 4’10’’, a duração exacta do Tango de Igor Stravinsky. (...) E é exactamente aí que ocorre aquilo a que temos de chamar o puro milagre do cinema: é como se o elefante ouvisse, interiormente, o Tango de Stravinsky e lhe respondesse com movimentos muito suaves, quick, quick, slow,  (...) num acordo profundo com o ritmo, os seus progressos e repetições, as cordas e os sopros, os pizzicati, toda a evanescente massa orquestral que o acorrenta e que parece emanar dele. Mas que estará ele, então, a ouvir? (...)

Jean-André Fieschi
in catálogo "cinematografia –coreografia"
Lisboa Novembro de 2007