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segunda-feira, 22 de setembro de 2003

HUBERT ROBERT, A FORTUNATE LIFE de Alexander Sokurov - 03.10.2003


“…the ruins of villas or palaces, castles, bridges, ancient vaults appear one by one before my eyes, like dreams; ghostly landscapes with grey trees…"
Alexander Sokurov

HENRI MATISSE de François Campaux - 01.10.2003

Este ensaio da biografia e apresentação crítica de uma obra tornou-se um documento de arquivo extraordinário pela presença de Matisse a trabalhar. Devemos citar a sequência de ralenti, doravante célebre, onde se vê, com emoção, o nascer de um traço, o roçar de um pincel que hesita pousar depois a imediata soberania da linha. E ainda Matisse a fazer o retrato de um dos seus netos, Matisse a passear, com um caderno de esquissos na mão, Matisse a vigiar a colocação dos quadros. Enfim, á volta de dois quadros La blouse paysanne e uma natureza morta, as etapas sucessivas das telas até que a obra chegue à l’ art d’abréviation da versão definitiva.

JAIME de António Reis - 04.10.2003


(...) Jaime, um camponês beirão fora internado aos 38 anos no Hospital psiquiátrico Miguel Bombarda. Apesar do ambiente concentracionário do local, começou inesperada e sofregamente a escrever e a pintar aos 65 anos. Parte da sua vasta obra desapareceria. Mas o pouco que nos ficou revela-nos, graças aos cuidados de António Reis, um artista de primeiríssima água revelando um universo de grande beleza e intensidade, como se atravessasse toda a arte milenar, das grutas pré-históricas aos perfis suméricos, mas também expressões artísticas mais próximas como a arte bruta, o expressionismo, o fauvismo. Enfim, revela-nos uma vera e intuitiva sensibilidade como quem, no dizer de António Reis, "habitava o espaço de gruta, subterrâneo ou sideral, com nuvens onde viajavam e sofriam ‘‘100 homens dentro’’".(...)
Manuel Hermínio Monteiro
O Olhar de Ulisses III - Porto 2001
A Utopia do Real
in catálogo Temps d'Images 2003

UTAMARO O MEGURU GONIN NO ONNA (Cinco Mulheres à volta de Utamaro) de Kenji Mizoguchi - 01.10.2003


(...)Mizoguchi não elide a natureza das relações entre Utamaro e as suas cinco mulheres. Para além das duas que já falei, Yukie (“a escola chinesa: inexpressiva”), Oshin, a mulher mais carnal, e Okita, aquela que levou às últimas sequências, mortais e vitais, a ética e a estética de Utamaro, aquela que, na vida, foi tão ao fundo como Utamaro o foi na pintura. Sabemos que foi amante de todas. Mas a posse total só se dá, quando todas elas se transformam em pintura, quando a criação erótica se funde com a criação artística.
Neste sentido, mais do que sujeito deste filme sobre um pintor, a pintura é objecto deste filme. Porque só na pintura está “a essência da mulher”, “a beleza de todas as mulheres” e porque a finalidade de todos os acontecimentos e de todos os movimentos é a imagem fixa, a imagem pintada, por isso mesmo a imagem nunca representada. E a única mulher de que não conhecemos imagem captada – Okita – é a que inscreveu na sua ética a estética de Utamaro, reclamando-se do seu exemplo para o duplo crime que cometeu.
Desta situação objectiva e da objectividade da imagem fixa, da pintura do filme, decorre a variável estilística de Cinco Mulheres à Volta de Utamaro, como caso único na obra de Mizoguchi.
João Bénard da Costa
Folhas da Cinemateca
in catálogo Temps d'Images 2003

domingo, 21 de setembro de 2003

OHAYO (Bom Dia) de Yasujiro Ozu - 27.09.2003


(...) A “greve de palavras” acaba por funcionar como imposição para a compra da televisão e começara com um pretexto bastante pertinente: a banalidade de certas fórmulas de saudação, cuja verdadeira função elas ainda não apercebem (nem o espectador, que só a elas chega na belíssima cena final em que o par formado pelo professor e a irmã mais velha dos miúdos, conversa na estação enquanto esperam o comboio, frases feitas de lugares comuns que são a forma de estabelecer um laço afectivo e, por isso, carregados de sentido). (...)
Manuel Cintra Ferreira
Folhas da Cinemateca
in catálogo Temps d'Images 2003

FRENCH CANCAN de Jean Renoir - 27.09.2003


(…) Sabe-se que se trata de alguns episódios da vida de Zidler (Danglard), que criou o "Moulin-Rouge" no local do Cabaret de la Reine-Blanche. (…) Se Jean Renoir conseguiu evocar no ecrã, de uma maneira visualmente válida, uma certa época da pintura, tal nunca acontece por uma imitação exterior das suas características formais, mas sim por se colocar num determinado ponto de inspiração a partir do qual a sua direcção se ordena, espontânea e naturalmente, com um estilo concordante com essa pintura. (…) Mas French Cancan é para mim muito mais do que essa integração do estilo pictórico: o seu desenvolvimento no tempo. Ouso mesmo dizer que este filme é tão belo quanto um quadro de Renoir, mas um quadro com uma duração, um futuro interior. Esta afirmação sugere contradições que há que rectificar de imediato. Não sendo a verdadeira pintura, na sua essência, anedótica, e muito menos a de Renoir, o seu desenvolvimento temporal também não é dramático. A inestimável importância de French Cancan advém, na minha opinião, quase inteiramente dessa originalidade que lança, retrospectivamente, uma nova luz e, quiçá, explica completando-a, a evolução já bem desenhada em Le Carrosse. É certo que já louvámos outros filmes por terem sabido libertar-se das categorias dramáticas, mas isto para constatar a sua inspiração literária. Neste caso, trata-se de uma perspectiva estética totalmente diferente. Efectivamente, a pintura não é senão objectivamente intemporal. De facto, para quem a contempla, é um universo a descobrir, a explorar. Assim, o tempo é uma dimensão virtual do quadro. Mas, se esse quadro começar a viver, a sofrer metamorfoses que vão afectar tanto o seu equilíbrio plástico como o seu tema, vemos que esse tempo objectivo não substitui de modo algum o tempo subjectivo mas, pelo contrário, se junta a ele. E é essa a sensação que nos provoca o espectáculo de French Cancan, a de existir em dois tempos, o tempo objectivo dos acontecimentos e o tempo subjectivo da sua contemplação.
(…) É o impressionismo multiplicado pelo cinema.
André Bazin
Jean Renoir, ed.Champ Libre
in  catálogo Temps d'Images 2003

LA DIRECTION D'ACTEURS PAR JEAN RENOIR de Gisèle Braunberger - 27.09.2003

(...) Tinha visto Renoir dirigir a figuração de French Cancan. Era a primeira vez que via um realizador interessar-se pelo menor figurante, indicar a cada um o que tinha a fazer de específico. Normalmente, é o segundo ou  o terceiro assistente quem se ocupa dessas coisas. Resultado: a multidão dá a impressão de ser inerte, aqui ela vivia
Nessa altura eu própria era uma simples figurante. Mas a ideia de fazer um filme sobre este método nasceu aí. (…)
Gisèle Braunberger
entrevista de Claude Beylie
in L'Avant-Scène Cinéma nº251/252

OS CANIBAIS de Manoel de Oliveira - 26.09.2003


(...) Os Canibais é um filme que oscila entre a ópera (o início) e algo de indefinível que tem a ver com a ópera-bufa e o fantástico-horrífico; seja como for, algo de nunca visto. Oliveira encomendou a composição desta ópera – o filme é totalmente cantado – a João Paes (que dirigiu muito tempo a Ópera de Lisboa e a quem se deve a música da maior parte dos filmes de Oliveira) segundo um conto português do século XI, de Álvaro Carvalhal. Num prólogo muito buñueliano, o povo, amontoado por detrás de umas barreiras, aplaude a chegada, numas esplêndidas limusinas, daqueles aristocratas vaidosos enquanto o apresentador, cantando, nos avisa de que “esta história gosta de sangue azul, gosta da aristocracia” e que aqueles que tiverem de o ouvir deverão participar com ele na “peregrinação através da alta sociedade, aquela que canta em vez de falar” . Neste momento, o espectador, ligeiramente inquieto, que não sabe muito bem em que pé dançar, não pode ainda imaginar até que ponto a sua inquietação tem razão de ser.(...)
Alain Bergala
Cahiers du Cinéma, nº409, Junho de 1988
in catálogo Temps d'Images 2003

O ACTO DA PRIMAVERA de Manoel de Oliveira - 26.09.2003


(...) o fervor e o amadorismo dos “actores” transmontanos revela- se mais rigoroso e comovente do que qualquer encenação pseudo- realista. Oliveira conjuga as lições de Rosselini e de Bresson antes de eles as levarem até às últimas consequências – sem falar dos vindouros J.M. Straub e D. Huillet. A sua própria obra futura retomará todas as apostas fortes do Acto da Primavera: a prioridade à palavra, a íntegra ponderada, a musicalidade, a metaforização, a fidelidade – que não exclui a manipulação estilística – ao “real” e às suas matérias, a denuncia da presença da câmara, a reconstituição pessoal das imagens “canónicas”, o tema da fé enquanto objecto de questionamento, etc. Todavia, embora em cada filme de Oliveira eu descubra novas audácias e uma renovada inventividade formal, poucos me confrontaram com uma forma tão forte e inédita: O cinema litúrgico – é um ateu o autor destas linhas.(...)
Saguenail
O Olhar de Ulisses III - Porto 2001
A Utopia do Real
in catálogo Temps d'Images 2003

LES MAÎTRES FOUS de Jean Rouch - 26.09.2003

(...) Organizado em torno da figura esculpida em madeira do governador britânico (o pormenor das plumas, utilizadas pelo governador em pessoa na prsença dos trabalhadores e depois por estes repescada numa mimetização da mesma situação, é esclarecedor), o ritual Hauka é a repetição teatralizada das práticas militares dos colonialistas. André Bazin referiu-se a esta sequência como uma espécie de commedia dell'arte e, de facto, é o que parece. (...)
Maria João Madeira
Folhas da Cinemateca
in catálogo Temps d'Images 2003

THE GOLDEN COACH (A Comédia e a Vida) de Jean Renoir - 25.09.2003